03/03/2010

"Estrangeiro" sufoca rede e superlota leitos do SUS

Publicada em 1/3/2010
Pacientes de fora ocupam espaço dos moradores de Campinas
Conseguir vaga para internação em hospitais públicos é uma dificuldade vivida por praticamente todos os usuários do Sistema Único de Saúde (SUS). Campinas tem cerca de 1,7 mil leitos do SUS e o mesmo tanto na rede privada, número suficiente para atender a população. No entanto, a carência e a má gestão dos leitos na região geram migração de pacientes de outras localidades para Campinas, penalizando os usuários da cidade. É o caso da menina de 12 anos atropelada e arrastada por 20 metros na última quarta-feira, no DIC 1. Ela recebeu o primeiro atendimento no Hospital Ouro Verde, mas depois ficou cerca de seis horas na sala vermelha do pronto-socorro enquanto a família e o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) buscavam um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) pediátrica nos hospitais campineiro. Só no início da noite surgiu a vaga, mas no Hospital Estadual de Sumaré (HES).
“O número de leitos do SUS atende a necessidade de Campinas, mas não comporta a sobrecarga gerada pela migração de pacientes da região”, afirma o secretário municipal de Saúde, José Francisco Kerr Saraiva. Segundo ele, a solução depende de ação regional, pactuada com Estado e municípios. “Caso contrário, Campinas fica construindo hospitais para atender pacientes de outras cidades, sem receber por isso e sem atender adequadamente sua população”, diz o secretário.
Kerr Saraiva diz que a inauguração do Hospital Ouro Verde, em junho de 2008, garantiu melhor assistência à população da região Sudoeste, que antes dependia do Hospital Celso Pierro, da Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas), referência na região Noroeste. “E as duas regiões têm populações quase que exclusivamente dependentes dos SUS”, afirma o secretário. O Ouro Verde, que atua hoje com 130 leitos, também colaborou para reduzir o número de pacientes atendidos em macas nos prontos-socorros e unidades de pronto atendimento (PA). “Antes da inauguração, tínhamos mais de 200 pacientes em macas nos PSs e PAs. Esse número não foi zerado, mas teve uma redução importante.”
A descentralização do atendimento hospitalar na Região Metropolitana de Campinas (RMC), hoje concentrada basicamente em Campinas, é uma das alternativas para garantir assistência de qualidade e desafogar os hospitais públicos campineiros, em especial o Hospital de Clínicas (HC) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), referência para uma população de 2,7 milhões de pessoas na RMC e de quase 4 milhões na região de abrangência do Departamento Regional de Saúde (DRS). As outras são aprimorar o gerenciamento dos leitos e melhorar a atenção básica. A criação dos ambulatórios médicos de especialidades (AMEs), programa do governo do Estado, também mostra bons resultados. Apesar de não ter internação, agiliza o diagnóstico, colaborando para diminuir o tempo de internação.
Má gestão
A diretora do DRS, Maria Aparecida Carricondo, diz que não há déficit de vagas na região, mas sim falhas na gestão desses leitos. “O problema é a falta de resolutividade de alguns hospitais e as deficiências da atenção básica, que geram filas nos prontos-socorros e sobrecarga nos hospitais de referência”, afirma. O superintendente do HES, Lair Zambon, compartilha a mesma opinião. “Há um estrangulamento em áreas específicas, como de leitos de UTI neonatal, por exemplo. Mas, no geral, não há déficit e sim falta de gestão dos leitos.”
Segundo Maria Aparecida, o preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de dois leitos e meio por mil habitantes. Por esse cálculo, o ideal para a região de abrangência do DRS, que soma quase 4 milhões de habitantes em 42 municípios, seria 9.928 leitos hospitalares. “Isso considerando atendimento a 100% da população. Como trabalhamos com a média de 80%, o número atual, de quase 8,5 mil leitos, seria suficiente para um bom atendimento. Isso se os leitos fossem bem gerenciados e tivessem resolutividade”, diz Maria Aparecida. Na RMC, são 5.663 leitos, considerando os da rede pública e privada, para uma população de 2.732.743 habitantes.
A FRASE
“Os AMEs fazem exames e diagnósticos e encaminham o paciente para o hospital só para a realização do procedimento. Isso dispensa a internação para exames, reduzindo o tempo de permanência do paciente no hospital.”
MARCELO RAMOS
Médico
Migração traz pessoas até do ABC para atendimento
A deficiência de leitos não é exclusividade da RMC. Sonia Brito, de 31 anos, moradora de Santo André, no ABC, veio buscar atendimento hospitalar em Campinas. Portadora de artrite reumatoide juvenil, ela desistiu de esperar os quatro ou cinco anos previstos pelo médico de sua cidade para as cirurgias de prótese. “Uma conhecida me indicou o hospital (Celso Pierro) da PUC-Campinas e comecei a me tratar aqui. Já fiz cirurgia nos dois punhos”, conta Sonia. Apesar de ter sido melhor atendida em Campinas, ela admite que buscar assistência distante de casa é bem complicado. “É longe, há o gasto de combustível, pedágio, o cansaço. Sem contar que, às vezes, você perde a viagem e não consegue a internação, porque chega alguma emergência.” O cardiopataJames Domingos, de 36 anos, não precisou sair de Campinas, mas conseguiu vaga distante de casa. Morador do Jardim São Marcos, na região Norte, ele é atendido no Celso Pierro, na região Noroeste. “É longe, mas estou na cidade e sendo bem atendido. Isso é o que importa”, diz. Ele está internado desde o último dia 19 e passaria por cirurgia cardíaca ontem. Sonia seria operada no quadril na última quinta-feira, mas casos emergenciais ocuparam sua vaga no centro cirúrgico. Como as operações de quadril só ocorrem às quintas-feiras, ela teve alta e retorna na próxima semana. (DM/AAN)
Atenção básica é o nó da questão
Pelo menos 80% dos casos poderiam ser solucionados nos centros de saúde
Além das falhas de gestão de alguns hospitais que resultam em sobrecargas nos PSs, as deficiências da atenção básica são o principal problema da assistência à saúde, conforme mostrou o Correio na edição de ontem. Segundo a diretora do DRS, Maria Aparecida Carricondo, “pelo menos 80% dos atendimentos de saúde poderiam e deveriam ser solucionados na atenção básica”. “Não adianta construir mais hospitais. A questão é preparar a atenção básica para prestar o atendimento devido.”
Maria Aparecida lembra que o objetivo da política nacional de saúde é diminuir e não aumentar a hospitalização. “As internações devem ser criteriosas, só para quem precisa mesmo. Mas, para isso, é indispensável melhorar a atenção básica”, afirma. A profissional cita como exemplo a sobrecarga na área neonatal. “São muitos bebês prematuros e de baixo peso, que precisam de internação em UTI. Na maioria das vezes, isso acontece por falhas no pré-natal”, diz.
A dificuldade que a maioria dos municípios encontra para contratar e fixar médicos nas unidades básicas de saúde é um dos desafios da área. (DM/AAN)

Correio Popular
Delma Medeiros
DA AGÊNCIA ANHANGUERA


Vício em remédio supera abuso de drogas ilícitas

Documento da ONU relata crescimento na dependência de drogas permitidas
Nos EUA, abuso de remédios já é maior do que o uso de cocaína, ecstasy e heroína; muitos medicamentos são obtidos de forma ilegal
Eugene Sim/Shutterstock

FLÁVIA MANTOVANI
EDITORA-ASSISTENTE DO EQUILÍBRIO
GABRIELA CUPANI
DA REPORTAGEM LOCAL

Um relatório com dados de 2009 divulgado ontem pela Junta Internacional de Fiscalização a Entorpecentes, ligada à ONU, revela que houve um crescimento no abuso de medicamentos, que, em alguns países, tornou-se mais comum do que o consumo excessivo de drogas ilícitas como heroína, cocaína e ecstasy juntas.
Remédios como benzodiazepínicos (tranquilizantes), analgésicos opioides e anfetaminas (como os inibidores de apetite) estão entre os mais usados para esse fim -em doses acima ou para fins diferentes do recomendado. Muitos são de tarja preta, mas podem ser comprados na internet, contrabandeados ou falsificados.
Nos EUA, esse tipo de abuso é o segundo mais comum, perdendo para o vício em maconha -a principal no mundo. Segundo o relatório, naquele país 6,2 milhões de pessoas abusaram de drogas legais em 2008.
Elisaldo Carlini, diretor do Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), afirma que, apesar de não haver dados que mostrem o crescimento do abuso de drogas lícitas no Brasil, na prática isso é notado. "É um fenômeno muito perigoso porque não se pode simplesmente abolir a produção desses medicamentos. São substâncias úteis para tratar doenças, o problema é o mau uso", diz.
Carlini explica que esses remédios causam dependência e tolerância -com o tempo, é preciso aumentar a dose para ter o mesmo efeito.
Apesar de serem lícitos, esses remédios, quando usados inadequadamente, podem trazer problemas como taquicardia, hipertensão, convulsões, tremores intensos e até levar à morte. "Não é pequeno o número de overdoses por opioides", exemplifica Carlini.
"Esse abuso é reflexo do mundo em que vivemos, que valoriza a cultura do corpo, a magreza, em que as frustrações devem ser evitadas. Isso tudo combina com uso excessivo de remédios", diz o psiquiatra Arthur Guerra, do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Golpe
O documento da ONU indica ainda que tem crescido no mundo o uso de drogas conhecidas como "boa noite, Cinderela" -ou "date-rape drugs", em inglês. Trata-se de sedativos adicionados secretamente em altas doses à comida ou bebida de uma pessoa para reduzir sua habilidade de resistir à violência e de se lembrar do ocorrido depois.
Segundo a instituição, o uso dessas drogas por criminosos não é novo, mas tem evoluído à medida que eles vêm substituindo a substância mais comum -o flunitrazepam (Rohypnol), restrito por convenções internacionais- por outras mais facilmente obtidas, como o GHB e a ketamina. A ONU diz que os governos devem reunir esforços para limitar o acesso a esse tipo de droga.
O flunitrazepam, por exemplo, pode fazer a pessoa dormir por dois ou três dias seguidos e há risco de grave hipoglicemia e até de morte. O GHB provoca um coma superficial que pode durar oito horas.
Segundo Anthony Wong, chefe do Ceatox (Centro de Assistência Toxicológica), do Instituto da Criança do HC de São Paulo, o serviço recebe, em média, um caso de vítima desse golpe por semana, mas o número de afetados deve ser muito maior. "A maioria tem vergonha e não conta."
Os principais alvos são os jovens. O toxicologista recomenda jamais aceitar bebidas de desconhecidos, mas diz que muitos casos envolvem amigos e até parentes do paciente.
Fonte: folha de são paulo, 25.02.2010

Álcool e cigarro matam mais que outras drogas

O abuso de drogas ilícitas é um problema relevante, mas que deve ser corretamente dimensionado para não dar margem a discursos alarmistas ou que desviem o foco de questões mais importantes.
Existem duas drogas psicoativas de ampla utilização no mundo: álcool e nicotina. Elas respondem por mortes que se contam na casa dos milhões. Já o uso de todas as substâncias ilícitas somadas representa uma fração pequena do consumo de bebidas e cigarros.
Segundo a OMS, o número de fumantes no planeta está em torno de 1 bilhão, o que corresponde a 17% da população. O de usuários de álcool varia bastante de país para país -ele pode ser muito baixo em nações muçulmanas e extremamente elevado no Primeiro Mundo.
No caso do Brasil, uma pesquisa realizada em 2005 pelo Cebrid (Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas), órgão ligado à Universidade Federal de São Paulo, mostrou que 75% da população entre 12 e 65 anos já havia feito uso de álcool ao menos uma vez na vida, com a proporção dos que podem ser considerados alcoólatras chegando a 12,3%.
Já a prevalência do uso de drogas ilícitas é, pela própria ilegalidade, mais difícil de calcular. O Undoc (escritório da ONU contra drogas e crimes), em seu relatório de 2008, afirmou que o total de usuários não excede 5% da população com idade entre 15 e 64 anos, e a parcela daqueles que podem ser considerados dependentes fica abaixo de 0,6%.
Considerados só os óbitos, a situação não muda muito. Segundo a OMS, o tabaco mata, por ano, 5 milhões de terráqueos (10% de todos os óbitos de adultos). Já o álcool tira a vida de 1,8 milhão (3,2%). Todas as drogas ilícitas respondem por 200 mil mortes (0,4%).
Não há dúvida de que o problema das substâncias ilícitas exige uma resposta das autoridades. Mas, sob a perspectiva da saúde pública, quando se fala em drogas, o que realmente conta é tabaco e álcool.
HÉLIO SCHWARTSMAN.

SUS oferece mais remédios similares do que genéricos

Pesquisa da Escola Nacional de Saúde Pública, da Fiocruz, concluiu que o SUS disponibiliza mais medicamentos similares do que genéricos nas farmácias populares. Os resultados estão nos "Cadernos de Saúde Pública".
Os genéricos precisam provar bioequivalência (testes em humanos) com os de marca. Os similares têm o mesmo princípio ativo, mas só precisam comprovar equivalência (em laboratório).
Feito em 2007 em 182 farmácias públicas e privadas de 25 municípios, o levantamento apontou também que os genéricos competem em preço com os similares.
Reinaldo Guimarães, secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, diz que o órgão cumpre a lei de licitações, que privilegia o menor preço. "Os similares não são piores do que os genéricos." A partir de 2014 os similares terão de comprovar a bioequivalência. (FB)

Reportagem local
Folha de São Paulo -  25/02/2010